Alex Guaitolini defende fortalecimento das entidades e aposta na união dos produtores para transformar a pecuária de Rondônia
A história do agro de Rondônia é feita por famílias que cruzaram o país em busca de oportunidades. Muitas enfrentaram estradas de terra, doenças, isolamento e a incerteza de construir uma nova vida na Amazônia. Foi justamente resgatando essa memória que começou mais um episódio do RuralCast, podcast produzido em parceria entre a APRON e o Grupo Amazun, apresentado por Dhiony Costa e Silva, diretor executivo da APRON.
O convidado foi Alex Guaitolini, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Cacoal e Ministro Andreazza, que abriu a conversa lembrando sua chegada ao estado ainda criança, na década de 1980.
Filho de produtores rurais, Alex contou que veio do Paraná com a família em um caminhão pau de arara, quando a viagem entre Cuiabá e Cacoal podia durar mais de dez dias.
"Viemos para construir um lugar para morar e formar nossa família. Meu pai sempre foi agricultor e pecuarista. Rondônia representava a oportunidade de crescer produzindo."
A lembrança da infância também trouxe o outro lado da colonização: estradas precárias, ausência de infraestrutura e as dificuldades provocadas pela malária, que fez muitas famílias desistirem da região.
Apesar dos desafios, segundo ele, a determinação dos pioneiros foi responsável por construir o estado que hoje se destaca nacionalmente na produção agropecuária.
O momento que quase fez abandonar a pecuária
Durante a entrevista, Alex revelou que um dos episódios mais difíceis de sua trajetória aconteceu recentemente.
Mesmo cumprindo toda a legislação ambiental, recebeu um auto de infração por divergência de interpretação, situação que quase o fez desistir da atividade.
A experiência reforçou sua convicção de que o produtor rural precisa estar representado por entidades fortes.
"Foi um momento em que quase desisti da pecuária. Você faz tudo dentro da legalidade e ainda assim enfrenta problemas. É aí que percebemos como o produtor sozinho tem dificuldade para superar esses desafios."
Foi justamente diante dessas dificuldades que nasceu seu envolvimento com o associativismo e o sistema sindical.
Associativismo: ninguém cresce sozinho
Ao longo da conversa, um tema apareceu repetidamente: a importância da união dos produtores.
Para Alex, sindicatos, associações e cooperativas não competem entre si. Pelo contrário, exercem funções complementares e fortalecem todo o setor produtivo.
Segundo ele, países com agro altamente desenvolvido possuem entidades organizadas e representativas, capazes de defender os interesses da classe junto ao poder público.
"É muito inteligente fazer parte das entidades, porque você soma força em prol de um mesmo objetivo."
Ao falar sobre a APRON, destacou que a associação, mesmo jovem, já exerce papel importante na valorização da pecuária rondoniense.
"O trabalho do associativismo muitas vezes não é percebido. O associado olha apenas o benefício individual, mas o maior legado está no benefício coletivo."
Para o presidente do sindicato, quanto maior o número de produtores organizados, maior será a capacidade de influenciar políticas públicas e garantir avanços para o campo.
Capacitação é a chave para aumentar a produtividade
Outro ponto central da entrevista foi a qualificação profissional.
Alex explicou que a revitalização do Sindicato Rural permitiu ampliar a atuação do SENAR em Cacoal e Ministro Andreazza, levando cursos e assistência técnica aos produtores.
Na avaliação dele, essa formação tem sido decisiva para transformar diversas cadeias produtivas.
O café foi citado como exemplo.
Segundo Alex, a cafeicultura de Rondônia conseguiu se reinventar graças à tecnologia, pesquisa e capacitação dos produtores, tornando-se referência nacional.
Agora, acredita que a pecuária pode seguir o mesmo caminho.
"A capacitação favorece muito essa evolução. Hoje o café mostra que é possível transformar uma atividade e agregar valor ao produto."
Além disso, defendeu investimentos em agroindústrias para industrializar a produção e ampliar a geração de renda dentro do estado.
Gestão, sucessão familiar e tecnologia
Quando questionado sobre os maiores desafios atuais da pecuária, Alex apontou três prioridades.
A primeira é a gestão eficiente das propriedades.
Segundo ele, muitos produtores ainda desconhecem seus próprios custos de produção.
"O produtor precisa saber quanto custa produzir uma arroba. Se conhece seus números, consegue gastar menos ou ganhar mais."
Outro desafio é garantir a sucessão familiar no campo.
Para Alex, é fundamental criar condições para que os jovens permaneçam na atividade rural.
Ele acredita que a tecnologia pode ser uma aliada nesse processo, aproximando as novas gerações da produção agropecuária.
"Hoje não conseguimos produzir sem tecnologia. O jovem tem muito espaço no agro."
Também destacou a necessidade de melhorar a qualificação da mão de obra rural para acompanhar a evolução da atividade.
Rondônia tem potencial para liderar o agro brasileiro
Demonstrando otimismo, Alex afirmou acreditar que Rondônia está apenas começando a explorar seu verdadeiro potencial.
Na visão dele, o estado reúne características únicas: produtores empreendedores, abertura às inovações e grande capacidade produtiva.
"Eu acredito muito em Rondônia. Vejo um estado feito por gente que veio para produzir e construir uma região."
Ele também destacou que a pecuária tem muito a aprender com o exemplo da cafeicultura, principalmente na organização da cadeia produtiva, na valorização da qualidade e na conquista de novos mercados.
Outro ponto levantado foi a necessidade de mostrar à sociedade o trabalho desenvolvido pelos produtores.
Segundo ele, muitas vezes apenas os problemas ganham visibilidade, enquanto os avanços ambientais, tecnológicos e produtivos deixam de ser conhecidos.
"As entidades também têm essa missão de contar a história do que fazemos e mostrar aquilo que é feito de bom."
Liderança construída pelo exemplo
Ao falar sobre liderança, Alex resumiu sua filosofia em poucas palavras.
"Liderar é inspirar."
Ele afirmou que decisões importantes precisam ser tomadas com base em informação, planejamento e conhecimento técnico.
Também revelou que suas maiores inspirações continuam sendo seus pais e todas as pessoas que, por meio das entidades, conseguem melhorar de vida.
"É emocionante ver uma família sair de um curso mais preparada. Isso renova nossa vontade de continuar trabalhando pelas entidades."
No encerramento, deixou um convite aos produtores para que participem do sindicato, da APRON e das ações de capacitação promovidas no estado.
Segundo ele, fortalecer as organizações rurais significa fortalecer toda a agropecuária de Rondônia.
"Procure seu sindicato, fortaleça sua entidade. É assim que vamos construir uma atividade mais próspera, sustentável e duradoura.
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