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Estudo sobre hepatites virais traça panorama da doença em onze anos

Redação

Pesquisadores do Hospital Israelita Albert Einstein conduziram um estudo abrangente sobre as hepatites virais no Brasil, analisando 200 trabalhos científicos publicados entre 2013 e 2024, que incluíram dados de mais de 14,5 milhões de indivíduos. A pesquisa, parte do projeto “Caracterização de Hepatites Virais em Populações Vulnerabilizadas” do Proadi-SUS, visa gerar conhecimento para fortalecer estratégias de prevenção e cuidado, buscando a meta de eliminar as hepatites virais no país até 2030. O estudo, que abordou as hepatites A, B, C, D e E, foi divulgado na revista científica internacional PLOS ONE.

João Renato Rebello Pinho, médico do Departamento de Patologia Clínica do Einstein e coordenador do estudo, explicou que, embora as hepatites B e C sejam as mais lembradas por sua frequência e cronicidade, todas as formas virais foram consideradas.

Hepatite A

A hepatite A, uma doença aguda que pode apresentar quadros graves, é prevenível por vacinação. Pinho alertou para o ressurgimento da hepatite A no Brasil, com uma nova forma de transmissão reconhecida: o contato oral-anal durante relações sexuais. Inicialmente observada em homens que fazem sexo com outros homens, a doença se disseminou para outras populações não vacinadas, incluindo mulheres que praticam sexo oral-anal. O especialista enfatizou a importância da vacinação para todos.

Ele esclareceu que a transmissão não ocorre por contato casual, como pele a pele, mas sim por contato íntimo ou, mais comumente, por via alimentar (água ou alimentos contaminados). Embora o comportamento sexual tenha impulsionado a disseminação nos últimos dez anos, a transmissão interpessoal direta é limitada, exigindo contato muito próximo, como em ambientes familiares onde a higiene pode ser comprometida. Crianças infectadas, por exemplo, podem transmitir mais facilmente devido à dependência dos cuidados higiênicos dos pais.

Em termos geográficos, a hepatite A de transmissão oral-fecal é prevalente nas regiões Amazônica, Norte e Nordeste. Contudo, entre homens com mais de 18 anos, muitos casos foram identificados nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, associados ao comportamento sexual e à ausência de vacinação gratuita para essa faixa etária.

Hepatites B e C

Para as hepatites B e C, a transmissão ocorre principalmente por via sexual, contato com sangue ou produtos sanguíneos, e uso de drogas injetáveis. A transmissão vertical, de mãe para filho durante a gestação ou parto, também é uma via relevante, embora o Brasil tenha avançado significativamente no controle da transmissão de hepatite B e HIV nesse contexto, tornando-a rara atualmente, segundo Rebello Pinho.

Ele destacou a disponibilidade da vacina contra a hepatite B, que, diferentemente da hepatite A, pode se tornar crônica e está associada a cirrose e câncer de fígado. Existem tratamentos eficazes para a hepatite B. Para a hepatite C, embora não haja vacina e as vias de transmissão sejam similares às da hepatite B, os tratamentos atuais curam mais de 95% dos pacientes.

Rebello Pinho ressaltou a evolução dos tratamentos para a hepatite C, que antes eram insatisfatórios e hoje são altamente eficazes, mas enfatizou a importância da prevenção. As medidas preventivas incluem sexo seguro e evitar o contato com sangue, especialmente o uso de drogas injetáveis. O pesquisador também mencionou que a transmissão por seringas compartilhadas ou transfusões de sangue, antes comum para a hepatite C, é hoje rara devido aos avanços nos protocolos de segurança.

Hepatite D

João Renato Rebello Pinho descreveu a hepatite D, ou Delta, como uma doença negligenciada, frequentemente associada a populações de baixo nível socioeconômico e com acesso limitado aos sistemas de saúde. No Brasil, sua incidência é alta na região amazônica, especialmente entre comunidades ribeirinhas, onde o diagnóstico é desafiador.

Embora a hepatite B também seja prevalente na Amazônia e em outras partes do país, Pinho destacou que a hepatite D está intrinsecamente ligada à B: a infecção por hepatite D só ocorre em indivíduos já portadores do vírus da hepatite B, seja por coinfecção simultânea ou superinfecção posterior. Estudos genéticos indicam que a maioria dos vírus D no Brasil é característica da região amazônica, sugerindo um ciclo viral mantido localmente por um longo período. A vacina contra a hepatite B é eficaz na prevenção da hepatite D, pois impede a infecção inicial pelo vírus B.

No entanto, em populações ribeirinhas, a coinfecção B e D é comum e pode levar a formas mais graves da doença, incluindo hepatite aguda fulminante, hepatite crônica severa, cirrose e câncer de fígado, configurando um sério problema de saúde pública na Amazônia. Pinho classificou a hepatite D como uma doença rara no contexto geral, mas com alta frequência e mortalidade em grupos específicos, sendo frequentemente subdiagnosticada e com tratamentos de difícil acesso na região.

Hepatite E

A hepatite E, menos conhecida, foi inicialmente descrita na Índia com casos graves e epidemias extensas, associadas a um genótipo específico daquela região. No Brasil e na Europa, a doença é causada por um genótipo diferente, encontrado em animais, caracterizando-a como uma zoonose, transmitida ao homem principalmente por suínos. Há evidências de porcos infectados com hepatite E no Brasil.

Rebello Pinho defendeu a abordagem de "saúde única" para todas as hepatites virais, incluindo a E, que exige a melhoria da saúde tanto humana quanto animal. A pesquisa indicou que o Sul do Brasil pode apresentar maior incidência de hepatite E, devido à concentração de criação de suínos na região. Contudo, a hepatite E é geralmente menos grave que as outras formas, sendo uma doença aguda que muitas vezes passa despercebida, e que ainda demanda mais estudos no país.

Prevalência

Dos 200 estudos analisados, a hepatite B foi a mais investigada, seguida pela hepatite C. A soroprevalência da hepatite A na população geral oscilou entre 33,3% e 67,8%, atingindo picos em populações vulneráveis como encarcerados (88,1%), imigrantes (87,4%) e indivíduos transgêneros (75,6%).

A prevalência da hepatite B na população geral variou de 0% a 7,5%, com as maiores taxas concentradas na região amazônica. Já a hepatite C apresentou soroprevalência de 0,04% a 2,2% na população geral, com índices significativamente mais altos entre usuários de drogas (36,9%). A hepatite D foi predominantemente registrada na Amazônia, com prevalência entre 0% e 23,9%. Para a hepatite E, a prevalência na população geral variou de 0,9% a 59,4%, com o maior valor observado na Região Sul.

Planejamento

Os dados compilados pelo grupo de pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein são esperados para auxiliar gestores, profissionais de saúde e pesquisadores no desenvolvimento de estratégias que contribuam para a meta nacional de erradicação das hepatites virais até 2030.

Proadi-SUS

O Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), estabelecido em 2009, tem como finalidade aprimorar o SUS. Ele atua por meio de projetos de capacitação, pesquisa, avaliação, incorporação de tecnologias, gestão e assistência especializada, conforme demandas do Ministério da Saúde. Atualmente, o Proadi-SUS congrega sete hospitais filantrópicos de excelência em assistência e gestão: A.C. Camargo Cancer Center, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Hcor, Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital Moinhos de Vento e Hospital Sírio-Libanês. O financiamento do programa provém da imunidade fiscal concedida a esses hospitais participantes.

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