A história de Rondônia não está apenas em atos de governo ou nas datas de criação de municípios. Ela também aparece nas festas religiosas, nos campos de futebol, nos hábitos trazidos por migrantes, nas páginas de jornais e nas lembranças guardadas por famílias. Esses foram alguns dos caminhos percorridos por Lúcio Albuquerque em entrevista ao apresentador Lenílson Guedes no PodRondônia, do Grupo Amazun, exibido no canal Olá Rondônia.
Jornalista, escritor e historiador, Lúcio viveu em Rondônia as mudanças do antigo território federal e fez delas tema de reportagens e livros. Durante a conversa, relembrou viagens pelo estado, coberturas que o aproximaram de comunidades e a forma como diferentes grupos ajudaram a construir a identidade rondoniense.
Uma das experiências que mais o marcaram foi a cobertura da Festa do Divino Espírito Santo no Vale do Guaporé. Lúcio afirmou ter passado 18 dias acompanhando os participantes em uma embarcação. O tempo de convivência, disse, permitiu observar a celebração e ouvir os moradores de uma maneira que uma visita breve não permitiria. “Eu senti a fé de perto”, declarou.
A lembrança abriu espaço para uma reflexão mais ampla sobre cultura. Perguntado por Lenílson sobre o que define Rondônia, Lúcio destacou o encontro de pessoas de várias origens. Citou tradições amazônicas, indígenas e nordestinas e recordou comunidades formadas pela presença de migrantes do Espírito Santo, de Minas Gerais e dos estados do Sul.
Em sua avaliação, o estado ainda pode conhecer melhor essa diversidade. Ele defendeu a realização de encontros culturais capazes de aproximar manifestações de diferentes municípios e regiões. “Quantas culturas boas nós temos em Rondônia nós não conhecemos”, afirmou. Para o escritor, as grandes distâncias contribuem para que moradores de uma parte do estado tenham pouco contato com as tradições preservadas em outra.
Lúcio recorreu também à alimentação para explicar esse encontro. Falou do peixe associado à cultura amazônica, do churrasco trazido por migrantes do Sul e de outros costumes que passaram a conviver no mesmo território. Sua reflexão foi a de que a cultura rondoniense se forma nesse contato contínuo, sem apagar a origem das comunidades que contribuíram para ela.
O futebol e a imprensa nas arquibancadas
Lenílson levou a conversa ao esporte e perguntou sobre o futebol de Rondônia em diferentes épocas. Lúcio disse que não acompanha de perto o campeonato atual e, por isso, preferiu concentrar sua resposta no período que testemunhou. Recordou jogadores, clubes e uma época em que, segundo ele, partidas importantes mobilizavam torcedores e recebiam atenção diária de jornais e emissoras de rádio.
Na avaliação do convidado, o futebol local contava com condições particulares no tempo do território federal. Ele relatou que alguns atletas exerciam empregos públicos enquanto jogavam pelos clubes. Também destacou a participação da imprensa, que acompanhava treinamentos, anunciava confrontos e ajudava a criar expectativa para os clássicos.
Lúcio lembrou estádios cheios em jogos que, segundo sua recordação, reuniam milhares de pessoas. Ao comparar aquele cenário com a cobertura atual, reconheceu que há fatores econômicos e mudanças no funcionamento dos veículos de comunicação. Sua intenção, afirmou, não era apresentar um diagnóstico definitivo do futebol de hoje, que disse acompanhar pouco, mas registrar a força que presenciou nas arquibancadas e nas redações.
Os livros como outra forma de reportagem
A conversa terminou voltada à literatura. Lúcio falou de obras em que reuniu pesquisas sobre a imprensa, a cultura e personagens de Rondônia. Entre elas está Da Caixa Francesa à Internet — 100 anos da imprensa em Rondônia, livro em que registra mudanças nas técnicas de produção e na atuação dos jornalistas locais. O próprio autor já apresentou a obra como uma forma de contar a história da imprensa a partir de fatos e personagens que conheceu ou pesquisou.
Outra obra mencionada foi A Mulher em Rondônia. Durante a entrevista, Lúcio destacou seu interesse em registrar a participação feminina na história do estado. Textos publicados pelo próprio escritor também fazem referência às personagens e pesquisas reunidas nesse livro.
Ele citou ainda A sexta página de um repórter e contou que trabalha na revisão de Jantar dos Senadores, projeto dedicado a histórias e episódios da política local. Ao falar de livros futuros, apresentou uma ideia de caráter familiar: reunir lembranças e conversas com os netos em uma obra que chamou, durante o programa, de História dos meus netos.
Esses projetos mostram duas dimensões de seu trabalho. Uma está voltada aos acontecimentos públicos: jornais, política, formação de cidades e manifestações culturais. A outra preserva cenas da vida cotidiana, as conversas em família e personagens que poderiam desaparecer dos registros com o passar do tempo.
No encerramento, Lúcio fez questão de lembrar que Rondônia possui outros escritores e pesquisadores, inclusive fora da capital. Ao associar a produção literária às tradições locais, deixou uma mensagem que atravessou a entrevista: conhecer a história do estado também significa abrir espaço para que seus moradores contem as próprias histórias.
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